Quando você sente o Vazio, o que fazer?




Recentemente, conversava com um amigo e ele me dizia que não estava muito bem porque parecia que nada mais fazia sentido na vida. Estava sentindo um vazio.

Eu disse, "que bom"! - talvez, para o espanto dele. E, também disse que isso era um sinal de que ele estava amadurecendo.

Depois, lembrei que já havia escrito um texto sobre essa sensação de vazio, que transcrevo a seguir.

Toda a nossa sociedade se baseia no ego e por isso, o mundo é como é. Tudo se baseia no esforço, no sacrifício, na "superação de si mesmo" para atingir objetivos: o casamento, a casa, o carro, o trabalho, os bens, as viagens, isso e mais aquilo. Até mesmo a tal da iluminação!

Quanto mais esforço, mais dor, mais sofrimento e... maior é a vitória! Eu consegui! Vejam onde eu cheguei! E, assim, o ego se autoperpetua.

Porém, se logo a seguir não temos um outro objetivo a seguir, o que acontece? Caímos em um grande e assustador vazio! E, é claro, para que isso não aconteça, para não sentirmos o vazio, continuamos perseguindo coisas e queremos mais e mais. É um vício.

O vazio é uma ameaça. O vazio é constrangedor. O vazio é assustador. No vazio, estamos nus. No vazio não somos nada. Porque o ego não pode existir no vazio.

No vazio há uma plenitude tão grande, uma paz tão insuportável, que não sabemos o que fazer. Afinal, no vazio não há o que fazer, não há para onde ir, não há nada. O vazio é desesperador....para o ego.

O ego não suporta o vazio. Para o ego, o vazio é a morte. Porque o vazio é a liberdade total, é a conexão plena, mas lá não existe "nada". No vazio nada existe.

Para a sociedade ocidental, cuja a máxima expressão durante séculos é "penso logo existo", o vazio é uma doença, uma desgraça que precisa ser combatida. Não há utilidade nenhuma no vazio.

Então, "eu estou doente", "estou em depressão", "não posso suportar esse vazio onde, eu, não existo". A solução, recomendada é não olhar para o vazio, este abismo infinito de possibilidade pura e existencial do nada.

A nossa sociedade que endeusa o esforço, a produção, a conquista e, nosso ego, que não suporta o vazio, acham que ele é horrível. Obviamente, que o ego desenvolveu uma série de mecanismos para se proteger do vazio e chamou esse contato com o vazio de doença. Uma doença terrível.

Os mecanismos para combater o vazio vão desde o entretenimento até as drogas - lícitas ou ilícitas. São mecanismos, as vezes sutis, como a música - que atualmente é apenas barulho para preencher o vazio e aturdir os pensamentos - filmes, revistas, shows, consumo, agito, agito, agito... Você precisa responder automaticamente a todos os estímulos que recebe vinte e quatro horas. Já não consegue nem dormir, porque está acelerado demais, em alta voltagem, tenso, cansado, ansioso, estressado...não pode parar nunca, tem sempre mais uma coisa para fazer, para pensar, para se preocupar, mais obsessões: corpo, alimentação, ecologia, política, religião, sexo, sucesso, dinheiro...

Você precisa ser um sucesso, politicamente correto, precisa ser aceito, precisa estudar, precisa trabalhar, precisa ser um pai, mãe, marido, esposa ou filho ideal. Precisa viajar o mundo e precisa muito, mas muito de dinheiro para resolver todos os seus problemas. Quanto mais melhor.

Você chama isso de vida, mas isso não é vida. Você não começou a viver ainda, de verdade. Você vive em modo automático.

Você nunca desliga, você nunca pode parar, nunca pode relaxar, nunca pode entrar em um estado de não ter nada para fazer, porque isso pode te levar a um contato mais profundo com você mesmo, que pode acabar te levando ao vazio.

O problema de fazer contato com o vazio é que a psicologia ocidental, de um modo geral, não o conhece, não entende, o que as culturas orientais e os mestres falavam sobre a "morte do ego". A psicologia ocidental parou na mente. Não foi além dela. Ela vive o paradigma do penso -existo.

E, ai, por circunstâncias da vida, você atinge o vazio, você o vê dentro de você e o mundo a sua volta, construído para atender as demandas do ego, não faz mais sentido, obviamente. Para quem já fez contato ou experimentou o vazio, o mundo se torna um lugar muito sem sentido, ou como disse Salvador Dali: "Nada é mais surreal do que a realidade!"

E, agora, o que eu faço com esse vazio, que sei, existe em mim, que, eu estou percebendo, que estou experimentando? Ninguém me disse o que fazer com ele. Apenas sei que sinto medo, é ameaçador, é fundo demais, é escuro demais. O que faço?

Não tenha medo do vazio. Você precisa atravessá-lo!


Para começar a viver a vida de verdade e saber o que é viver, o que é estar vivo, você precisa atravessar o vazio. Não tenha medo.

Acontece, que nessa travessia você terá que abandonar o seu ego. O problema é que seu ego não quer isso, não quer, que você o deixe. O ego não quer "morrer" e vai fazer de tudo, para não deixar que você se atire no vazio.

No Tarot, temos o carta do Louco, na qual vemos uma pessoa a beira do abismo, que no seu próximo passo vai cair no abismo, no vazio. Essa carta é a última, mas também a primeira do jogo. Na maioria dos baralhos de Tarot é o arcano zero, ou seja, vazio. E isso faz todo o sentido.

Precisamos, mesmo, ser "Loucos" para nos jogarmos no vazio. Somente quem é "louco", ou tem muita coragem, consegue se atirar no vazio sem saber o que vai acontecer. O louco não tem medo de atirar-se, não tem medo do desconhecido e não tem medo de morrer. Ele não tem medo de deixar para trás tudo aquilo que não faz sentido. Pois, "é morrendo que se vive".

Por fim, deixo essa linda história, que trata deste mesmo tema, mas sob uma outra perspectiva.

A Lenda das Areias


Vindo desde as suas origens nas distantes montanhas e após passar por inúmeros acidentes de terrenos nas regiões campestres, um rio finalmente alcançou as areias do deserto. E do mesmo modo como vencera as outras barreiras o rio tentou atravessar esta de agora, mas se deu conta de que mal suas águas tocavam a areia nela desapareciam.

Estava convicto, no entanto, de que fazia parte de seu destino cruzar aquele deserto, embora não conseguisse fazê-lo. Então uma voz misteriosa, saída do próprio deserto arenoso, sussurrou:

- O vento cruza o deserto, o mesmo pode fazer o rio.

O rio objetou estar se arremessando contra as areias, sendo assim absorvido, enquanto o vento podia voar, conseguindo dessa maneira atravessar o deserto.

- Arrojando-se com violência como vem fazendo não conseguirá cruzá-lo. Assim desaparecerá ou se transformará num pântano. Deve permitir que o vento o conduza a seu destino.

- Mas como isso pode acontecer?

- Consentindo em ser absorvido pelo vento.

Tal sugestão não era aceitável para o rio. Afinal de contas, ele nunca fora absorvido até então. Não desejava perder a sua individualidade. Uma vez a tendo perdido, como se poderá saber se a recuperaria mais tarde?

- O vento desempenha essa função – disseram as areias. – Eleva a água, a conduz por sobre o deserto e depois a deixa cair. Caindo na forma de chuva, a água novamente se converte num rio.

- Como é que posso saber que isto é verdade?

- Pois assim é, e se não acredita não se tornará outra coisa senão um pântano, e ainda isto levaria muitos e muitos anos; e um pântano não é certamente a mesma coisa que um rio.

- Mas não posso continuar sendo o mesmo rio que sou agora?

- Você não pode, em caso algum, permanecer assim – retrucou a voz. – Sua parte essencial é transportada e forma um rio novamente. Você é chamado assim ainda hoje por não saber qual é a sua parte essencial.

Ao ouvir tais palavras, certos ecos começaram a ressoar nos pensamentos mais profundos do rio. Recordou vagamente um estágio em que ele, ou uma parte dele, não sabia qual, fora transportada nos braços do vento. Também se lembrou, ou lhe pareceu assim, de que era isso o que devia fazer, conquanto não fosse coisa mais natural.

Então o rio elevou seus vapores nos acolhedores braços do vento, que suave e facilmente o conduziu para o alto e para bem longe, deixando-o cair suavemente tão logo tinham alcançado o topo de uma montanha, milhas e milhas mais longe. E porque tivera suas dúvidas o rio pôde recordar e gravar com mais firmeza em sua mente os detalhes daquela sua experiência. E ponderou:

- Sim, agora conheço a minha verdadeira identidade.

O rio estava fazendo seu aprendizado, mas as areias sussurraram:

- Nós temos o conhecimento porque vemos essa operação ocorrer dia após dia, e porque nós, as areias, nos estendemos por todo o caminho que vai desde as margens do rio até a montanha.

E é por isso que se diz que o caminho pelo qual o Rio da Vida tem de seguir em sua travessia está escrito nas Areias.










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