Caminho de Santiago – Preparação e Orientações para o Peregrino

Eu, peregrino no Caminho de Santiago, passando pelas florestas de carvalho, na Galícia.

Entenda, é uma Peregrinação

A primeira coisa que você deve ter em mente é que vai iniciar uma peregrinação. Isso não é a mesma coisa que praticar caminhadas. Seja lá qual for o seu motivo para fazer o Caminho de Santiago é muito importante que você entenda que não vai fazer turismo.

Mas qual a diferença? Ao peregrinar você está aceitando de boa vontade passar por todos os tipos de situação sem exigir nada. Nesse sentido, prevalece a máxima do caminho: “um peregrino não exige, agradece”.

Ao longo do caminho você vai encontrar gente de índole muito variada. Algumas pessoas são acolhedoras, assim como os albergues de peregrinos, outras nem tanto. E, ainda assim, a máxima continua valendo.

Peregrinos no Caminho de Santiago.

Que rota escolher?

O Caminho de Santiago é o nome de uma peregrinação. No entanto, existem diversas rotas. Existem tantos caminhos a Santiago como caminhantes. Isso acontece, por que as pessoas, antigamente, eram atraídas a Santiago de diferentes partes da Europa. E dependendo de onde partiam escolhiam o melhor caminho para elas.

A rota que mais se destaca é o Caminho Francês, que passa pelos Pirineus, por Roncesvalles, Pamplona, Logroño, Burgos e León. É a via mais procurada e, por sinal, a mais bem estruturada, também. O peregrino seguindo este via pode confiar nas setas amarelas – sinais que indicam a direção- que não terá problemas.

Outra possibilidade é o caminho Aragonês, muito utilizado na antiguidade. Passa por Somport e se une ao Caminho Francês em Puente La Reina, em Navarra.

Marcos do Caminho de Santiago. É comum encontrar algumas botas deixadas pelos peregrinos, que tiveram que se virar de outra maneira.

Mas qual escolher?

O Caminho Francês que passa por Roncesvalles é mais bonito, clássico e frequentado. No verão chega a ser massificado, por isso, muita gente prefere ir por Somport que é maior e muito mais solitário e agreste.

Os peregrinos mais experientes que já fizeram os dois, aconselham ao peregrino de primeira viajem ir por Roncesvalles. Encarar alguns dias de caminhada em solidão pode ser muito difícil para começar.
Outro motivo para começar por Roncesvalles é a comodidade já que tem ônibus diários e diretos a partir de Pamplona. No entanto, é aconselhável para quem tem mais tempo e disposição ir até Saint-Jean- Pied-de-Port para poder ter a experiência de cruzar os Pirineus.

Além deste, existem o Caminho Português, o Caminho do Norte, a Via da Prata, o Caminho Inglês, o Catalão e tantos outros...  

Seja qual for a sua escolha, todos os caminhos vão te levar até Santiago de Compostela.

Qual é a melhor época?

Para mim, a melhor época é a primavera, porque o Caminho fica completamente florido. É um espetáculo lindo para os olhos, a mente e o espírito.

A maioria dos peregrinos europeus, incluindo os espanhóis fazem o Caminho durante os meses de julho e agosto, simplesmente, porque estão de férias. O problema é que justamente nessa época é muito quente, principalmente nas intermináveis planícies de León e Castilha.

Outro fator indesejável nessas épocas de maior fluxo de peregrinos é que acontece um fenômeno, que pude assistir em vários momentos, que é uma espécie de psicose coletiva para conseguir uma cama em um albergue. Como tem muita gente fazendo o Caminho e os albergues ficam cheios, vários peregrinos acham que não vão conseguir um lugar para passar a noite e que vão ter que dormir sei lá onde, o que leva a algumas situações muito absurdas, como se levantar as quatro horas da manhã para chegar antes de todos  no albergue seguinte.

As tulipas e jardins, sejam públicos ou provados, são um espetáculo maravilhoso. E também animam os peregrinos.

Uma noite encontrei em um albergue um senhor brasileiro alucinado com esta situação e que me dizia: “os americanos estão chegando, eles estão vindo, eles reservam todos os quartos antes e quando você chega não tem lugar para ficar. Vou dormir cedo por que vou sair de madrugada”. E, ato contínuo, se meteu na cama sem nem dizer boa noite.

Por causa disso, também encontrei peregrinos... na verdade, fui ultrapassado por peregrinos que corriam desesperadamente para se adiantarem , certamente, com isso, não tiveram tempo para desfrutar do Caminho. Parece que esta situação piora nos anos santos.

A minha experiência me mostrou que, como se diz em espanhol, “no passa nada”, é apenas medo que se espalha, porque as pessoas são condicionadas demais. Eu era todos os dias o último a chegar a qualquer lugar e sempre acontecia de encontrar uma cama. Às vezes não tinha mais vaga nos albergues municipais, que são os mais baratos e, por isso, mais procurados, mas sempre tinha em algum albergue particular. Se não tinha naquela aldeia, era só caminhar mais uma hora e ir até a aldeia seguinte. No mais, meti em minha cabeça que não iria entrar naquele jogo psicótico e que se não encontrasse hospedaria, iria dormir em algum ginásio, bater na porta de alguém e pedir ajuda ou em uma igreja. Alguma solução ia aparecer. Mas nunca precisei fazer isso. Sempre tinha lugar.
Portanto, a melhor época é maio e junho, seguido de setembro e início de outubro. As temperaturas são mais suaves e os albergues estão com ocupação moderada.

Agora, quem tiver coragem e for meio masoquista pode optar pelo inverno...

Durante a primavera toda a natureza está florindo. É um espetáculo para os olhos e para a alma. 

Quanto tempo levo para fazer o Caminho?

Aprenda, desde já, outra grande máxima do Caminho: “o peregrino anda o quando pode, não o quanto quer”.

Não adianta forçar o passo. Isso pode acabar se tornando um desastre. Por isso, meu conselho é: tenha mais tempo do que você planeja ter. Por exemplo, se pretende fazer o caminho em 30 dias, reserve 40 ou mais, se puder. Isso ajuda a reduzir a pressão psicológica do “será que vou conseguir, será que vai dar tempo?”.

“Enfrentar os 800km a pé sem nunca ter feito caminhadas de longas distâncias é uma temeridade. Recomendo, fortemente, você treinar durante os meses anterior a viagem, fazendo caminhadas de vários quilômetros, com as mesmas botas e mochilas que vai usar durante o Caminho de Santiago”.
Você pode seguir fazendo o Caminho como vi alguns peregrinos, que mais pareciam robôs: andavam como máquina, estipulavam metas e cronometravam seus tempos. Normalmente, faziam parte do mesmo grupo da psicose coletiva, só que ainda sofriam dessa neurose do tempo.

Se você andar uma média de 25 km por dia vai levar aproximadamente 30 dias para percorrer 775 Km de Saint-Jean-Pied-de-Port até Santiago de Compostela. Essa me aparece ser uma boa média, que não força demais e ainda te dá tempo para curtir o Caminho. A média é, no plano, uma pessoa normal fazer 4 km por hora, sem forçar a marcha. Logo, você terá que caminhar em torno de 6 horas por dia. Essas horas ainda podem ser divididas em 3 horas pela manhã e 3 horas pela tarde. Encontre o seu ritmo e não siga o ritmo de ninguém.

Se, no final da viagem, sobrar tempo, você pode escolher ficar uns dias curtindo Santiago de Compostela, que uma cidade medieval incrível e cheia de vida ou ir até Fines Terrea, antes de voltar para casa.

Um pouco mais de tempo também é necessário, para você poder incluir alguns dias de descanso entre um percurso e outro, afinal, não somos máquinas e até elas quebram se forem forçadas.

Estas turistas estavam tentando fazer o Caminho a pé, carregando bolsas a tiracolo. É preciso estar preparado para passar longas horas caminhando. Antes de ir, pratique caminhadas e faça pelo menos um de longa distância. 

Hospedagem

Na maior parte do Caminho existem dois tipos: os albergues municipais e os albergues particulares.
Vale ressaltar que nos albergues para peregrino, só pode dormir aqueles que peregrinam a pé, de bicicleta e a cavalo. Para se hospedar neles você deve possuir obrigatoriamente a credencial de peregrino.

Os municipais são mais concorridos porque são mais baratos e tem boa infraestrutura não deixando a desejar para nenhum outro particular. Acontece que em algumas pequenas aldeias os albergues municipais são mais simples. Essas aldeias são mais lugar de passagem do que lugar de parada, já que basicamente, a maioria dos peregrinos seguem – quase cegamente – as indicações de algum guia de peregrinos, quase sempre coincidem de fazer as mesmas etapas. Lembro que todos os alemães tinham o mesmo guia. Então, as pessoas acabam parando mais em determinados lugares que em outros. Acho que isso explica a psicose da falta de cama.

Os particulares são um pouco mais caros e muitas vezes oferecem o mesmo tipo de acomodação do que os albergues municipais, ou seja, quarto com beliche. A diferença fica às vezes no tamanho. Os albergues municipais, normalmente, são muito maiores e com isso há mais aglomeração de gente, ou seja, mais gente por quarto e inevitavelmente, um pouco mais de roncos à noite... ou movimentação. No entanto, faz parte da etiqueta do peregrino respeitar o máximo possível o descanso dos outros. Nos albergues particulares você fica em quartos menores, que podem ter só dois beliches e acaba tendo uma noite de sono mais tranquila.

Você vai encontrar várias opções de hospedagem pelo Caminho, das mais simples as mais sofisticadas. As mais procuradas e utilizadas são os albergues municipais. 

Estive a maior parte do tempo em albergues municipais, sem nenhum problema. Também foi onde conheci mais pessoas e tive os melhores momentos. Mas, quando me sentia mais cansado migrava para um particular para me recuperar. Foi uma boa estratégia.

Também existem alguns poucos albergues religiosos, que são mantidos pela igreja católica. Esses não cobram para você ficar. Aceitam apenas doações, no valor que o peregrino puder ou quiser pagar. Nesses lugares é comum também servirem uma sopa à noite. Estive apenas em dois desses, ainda bem, foram os piores. Pode ter sido azar?

De qualquer maneira, verdade seja dita, a hospitalidade é uma tradição do Caminho de Santiago e, é o que o diferencia de qualquer outra rota turística.

Em geral, os albergues não abrem antes do meio dia ou uma hora da tarde. Aí, o pessoal da psicose de cama, que chegam antes, faz fila na porta... Não se pode permanecer mais de uma noite, a não ser por motivo de doença. A lei do silencio é a partir das 21h ou 23h, dependendo do albergue.

Diz a lenda, que o peregrino que está fazendo o caminho a pé tem preferencia na hora de se hospedar e depois são os ciclistas e cavaleiros. Mas não vi ninguém desalojando ciclistas para dar um lugar a caminhante. Acho que, apesar de ser uma regra, é muito mais uma questão de bom senso. Ambos então cansados e depois de alojado, não há porque desalojar.

A credencial

Qualquer que seja a situação ou motivo para fazer o Caminho, você precisa ter uma credencial de peregrino. É ela que vai abrir as portas dos albergues e que também vai comprovar que você fez o Caminho.
A credencial é uma espécie de carnê com espaços em branco onde os hospitaleiros vão colocando carimbos para certificar que você passou por ali.
Você pode conseguir a credencial em albergues ou algumas igrejas importantes da rota, como em Roncesvalles. O melhor, mesmo, é solicitá-la antes de sair em uma Associação de Amigos do Caminho, mais próxima de você.  No Brasil:  https://www.caminhodesantiago.org.br
E no mais... Buen Camiño!




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