Profissão e os Nossos Talentos


                              
Todos nós temos dons e talentos e esse parece ser um assunto antigo e muito debatido. A questão dos talentos e capacidades de cada pessoa parece que nunca foi fácil de ser resolvida. Até mesmo,na bíblia há uma importante parábola contada por Jesus sobre o uso das potencialidades humanas.

Nestes tempos, com a multiplicidade de ofertas de cursos, novas profissões e áreas de trabalho, está mais difícil para as pessoas saberem o que fazer de suas vidas e onde empregarem seus talentos.

Essa oferta de novas profissões se deve não somente ao desenvolvimento de novas tecnologias e surgimento de oportunidades, mas também a descoberta por parte das instituições de ensino de um filão de mercado, ou seja, a venda de cursos. Nunca, na história, houve tantos cursos à disposição. Você pode escolher praticamente onde, como e quando quer comprar o seu conhecimento. Pode ser à distância ou pode ser presencial. Pode ser mais barato ou mais caro, de acordo com o tempo, a quantidade de informação e o prestígio da instituição que vai fornecer o conteúdo programático. Se por um lado, este tipo de prática fornece inúmeras vantagens de capacitação e leva a informação aonde antes ela não chegava, por outro transforma o conhecimento em um produto comercial que está à venda na prateleira do mercado.

Na verdade, isso não desqualifica o conteúdo nem a qualidade de qualquer curso, seja on-line ou presencial. Esta prática é comum nos dias de hoje, e eu mesmo, já fiz mais de um curso à distância, de ótima qualidade, sem encontrar nenhum problema. A questão não é essa, pois da mesma forma que existe os bons cursos, também existem os ruins e somente fazendo uma busca mais apurada é que se consegue saber se tal curso tem ou não qualificação.

A pergunta é como escolher o que se quer fazer, qual carreira seguir, diante de inúmeras possibilidades? E a resposta está exatamente nos talentos pessoais. É preciso olhar para as qualidades e capacidades que se possui e perceber como utilizá-las.

Mas que talentos eu tenho e como desenvolvê-los? E quais deles podem me proporcionar à vida que eu quero ter e me inserir no mercado de trabalho de forma positiva e lucrativa, garantindo o meu futuro?

São muitas dúvidas e questões que podem assaltar uma pessoa. Não só jovens vestibulandos sofrem como essas perguntas. Muitos adultos que já experimentaram uma carreira e se sentem insatisfeitos ou que estejam passando por um período de mudança de emprego podem se questionar sobre que caminho profissional devem seguir na vida. E esse não é um assunto simples, nem normalmente uma decisão muito fácil de ser tomada. São inúmeros fatores que precisam ser avaliados. Sem contar com a pressão social que todos nós recebemos - uma certa cobrança de que “você tem que dar certo” e que seu sucesso é medido por aquilo que você conquista em termos de bens materiais.

Isso não deveria ser assim, pois é exatamente esta pressão, que está levando as pessoas a fazerem escolhas erradas, baseadas exclusivamente no poder aquisitivo que determinada profissão vai lhes proporcionar como se o poder de consumo, dado pelo salário que vão ganhar, pudesse comprar a solução para as suas vidas, para todos os seus problemas e ainda garantir o seu futuro.

O resultado disto está claro e tenho visto em atendimento terapêutico pessoas com bom poder aquisitivo, altamente estressadas, que não se sentem felizes, nem realizadas e que para poder continuar no ritmo de trabalho, aturando a tudo e todos, engolem “sapos” de chefes e clientes. Acabam na psiquiatria tomando algum tipo de “tarja preta”... as vezes mais de um. Um para dormir, um para acordar, um para bloquear os sinais mais óbvios que seu corpo e seus sentimentos e, sua parte mais essencial e elementar está produzindo para mostrar que alguma coisa não vai bem. Mas, é preciso ignorá-los para continuar a ganhar. Ganha por um lado, mas perde pelo outro. Que animal “inteligente” na face da terra escolheria trabalhar até o limite de suas forças físicas e psíquicas em detrimento de sua saúde, de sua vida?

É preciso olhar para alguns valores vigentes em nossa cultura para enxergar o que há por trás. Esse padrão no qual me refiro está baseado no medo. Primeiramente, no medo da escassez, de que algo pode vir a faltar no futuro. Esse medo gera insegurança. É preciso ter, é preciso comprar, é preciso acumular, para que se tenha uma garantia, uma falsa segurança de que tudo vai bem. As empresas de seguro, então, são mestras em vender esta falsa segurança. O medo e a insegurança apoiados por um arcabouço de estratégias de marketing que oferecem soluções rápidas para a complexidade da vida têm conduzido as pessoas a um padrão superficial e doentio. E não é de se espantar que suas escolhas as levem aquilo que eles não desejam, apenas supõe que é o melhor, pois não estão levando em considerações suas necessidades interiores, apenas as externas.

Quando me refiro a essas necessidades interiores, estou me referindo a todas as formas de atenção que um ser humano precisa para se “nutrir” adequadamente. Não se pode alimentar apenas uma em detrimento da outra porque no final o resultado será um curto circuito, como disse acima. O psiquismo e a alma precisam de nutrição de maneira equilibrada da mesma forma que o corpo. Negligenciar qualquer uma dessas partes do intrincado mecanismo humano é igual a ir contra a si mesmo.

Acontece que esse padrão social é incutido em nós, desde que somos muito pequenos. Em parte através da família, em parte através da escola que prepara um aluno não para a vida, mas para o vestibular. A escola, nos padrões que conhecemos hoje, está muitíssimo atrasada, principalmente quando deparada com as exigências deste novo milênio. O sistema aprovação-reprovação só consegue fornecer uma forma de padrão. Esse padrão acaba se repetindo ao longo da vida em sociedade, ser aprovado ou ser reprovado. Mas a vida vai muito mais além do que só aprovação ou reprovação, aceitação ou culpa.

O que é negligenciado pela escola e por todo o sistema social que se segue posteriormente é a descoberta das potencialidades de cada indivíduo. Enquanto professores se preocupam em empurrar informações, muitas vezes ultrapassadas e com métodos antiquados, não percebem o talento existente em cada aluno. Essa é a primeira pílula que amortece os sentidos e que todo mundo recebe. Faça como lhe é dito para ser feito e você se dará bem, não faça e... haverá conseqüências. Recompensa e castigo. Mecanicidade e controle.

Quando criança ainda, uma pessoas começa a desenvolver talentos artísticos como desenho e pintura, por exemplo, e começa a ouvir, que isso não dá dinheiro ou que não será bem sucedida. Também é comum começar a ouvir as sugestões dos pais, parentes e amigos e a se deparar com opções profissionais que valorizam mais a tecnologia do que a arte. Finalmente se tornará um profissional da área de tecnologia, que pode até ser bem sucedido financeiramente, mas que teve que se moldar contra sua natureza, frustrando um talento básico e outras necessidades, talvez, de expressão ou um dom que trazia em si. Por mais que essa pessoa se esforce ela jamais será um destaque na sua área, isso, se não se tornar um profissional comum ou medíocre. Trará com ele sempre um sonho. “Trabalho como advogado porque dá dinheiro, mas o meu sonho era ser chefe de cozinha”. Dá mesma forma a mulher que abandona sua profissão para cuidar da família e depois de alguns anos, quando os filhos crescem e o casamento acaba ela se descobre perdida, sem nenhum horizonte.

Mas como sair desse círculo vicioso, deste adestramento social?

Tudo começa pela auto-observação. Parar por um momento na vida, esvaziar a mente das condicionais, dos medos, dos preconceitos. Não olhar para o futuro, mas para o presente, o agora. Se veja face a face, com sinceridade, honestidade e passe a notar a variedade de talentos que possui. Sim, todos nós possuímos uma variedade de talentos, de habilidades, coisas que fazemos com facilidade e que podem nos parecer muitos simples. Muitos desses atributos podem estar escondidos, porém latentes. Pode ser que nem saibamos que exista dentro de nós. Deixe o medo de lado, a opinião das pessoas e passe a se experimentar em quantas áreas você achar que deve. Faça coisas que nunca fez antes e que podem parecer totalmente desconexas com você. Pode ser que você ache que não tem nenhum talento para determinada coisa e ao fazer pode se surpreender com o resultado.

Para se experimentar e se conhecer é preciso estar aberto ao novo, têm-se que romper o casulo, as barreiras que foram impostas por condicionamentos e lavagens cerebrais. Desta forma estará expandindo suas qualidades natas e vendo aquelas que pode usar, onde e quando para tarefas diferentes. Não existe outro método para se descobrir a não ser experimentando e observando. Abandone suas expectativas e medos e faça a experiência. Se não sabe por onde começar, não faz mal, escolha uma atividade nova e que lhe traga prazer. Faça aquilo que goste, permita-se, abra-se para o novo e desconhecido e veja como você vai reagir, quais são seus limites e por onde você pode ir sem reservas. Viaje muito, conheça lugares diferentes, pessoas, culturas e padrões de comportamento diferentes do seu. Uma hora seja pintor, na outra vá vender sanduíche na praia... experimente-se!

A vida não é de forma alguma uma linha reta. O mundo não é um lugar seguro. Nada está determinado. O conhecimento de si mesmo, seus limites e potencialidades e a soma das suas múltiplas habilidades é que podem abrir um mundo de possibilidades para você. Quando uma oportunidade encontrar com uma habilidade que você tem e desenvolveu, você terá encontrado seu caminho profissional. Não pare de se desenvolver, porque lá na frente à mesma oportunidade pode mudar, tudo pode acabar e você se verá de novo tendo que recomeçar. Mas se tiver desenvolvido seus talentos não haverá problemas.

Por fim, deixo para reflexão uma história de ensinamento sobre uma moça que enfrenta muitos desafios e naufrágios na vida e em cada experiência aprende uma nova profissão.

Fátima, a Fiandeira.

Numa cidade do mais longínqüo Ocidente vivia uma jovem chamada Fátima, filha de um próspero Fiandeiro. Um dia seu pai lhe disse:

— Filha, faremos uma viagem, pois tenho negócios a resolver nas ilhas do Mediterrâneo. Talvez você encontre por lá um jovem atraente, de boa posição, com quem possa e então se casar.

Iniciaram assim sua viagem, indo de ilha em ilha; o pai cuidando de seus negócios, Fátima sonhando com o homem que poderia vir a ser seu marido. Mas um dia, quando se dirigiam a Creta, armou-se uma tempestade e o barco naufragou. Fátima, semiconsciente, foi arrastada pelas ondas até uma praia perto de Alexandria. Seu pai estava morto, e ela ficou inteiramente desamparada.

Podia recordar-se apenas vagamente de sua vida até aquele momento, pois a experiência do naufrágio e o fato de ter ficado exposta às inclemências do mar a tinham deixado completamente exausta e aturdida.

Enquanto vagava pela praia, uma família de tecelões a encontrou. Embora fossem pobres, levaram-na para sua humilde casa e ensinaram-lhe seu ofício. Desse modo Fátima iniciou nova vida e, em um ou dois anos, voltou a ser feliz, reconciliada com sua sorte. Porém um dia, quando estava na praia, um bando de mercadores de escravos desembarcou e levou-a, junto com outros cativos.

Apesar dela se lamentar amargamente de seu destino, eles não demonstraram nenhuma compaixão: levaram-na para Istambul e venderam-na como escrava. Pela segunda vez o mundo da jovem ruira.

Mas quis a sorte que no mercado houvesse poucos compradores na ocasião. Um deles era um homem que procurava escravos para trabalhar em sua serraria, onde fabricava mastros para embarcações. Ao perceber o ar desolado e o abatimento de Fátima, decidiu comprá-la, pensando que poderia proporcionar-lhe uma vida um pouco melhor do que teria nas mãos de outro comprador.

Ele levou Fátima para casa com a intenção de fazer dela uma criada para sua esposa. Mas ao chegar em casa soube que tinha perdido todo o seu dinheiro quando um carregamento fora capturado por piratas. Não poderia enfrentar as despesas que lhe davam os empregados, e assim ele, Fátima e sua mulher arcaram sozinhos com a pesada tarefa de fabricar mastros.

Fátima, grata ao seu patrão por tê-la resgatado, trabalhou tanto e tão bem que ele lhe deu a liberdade, e ela passou a ser sua ajudante de confiança. Assim ela chegou a ser relativamente feliz em sua terceira profissão.

Um dia ele lhe disse:

— Fátima, quero que vá a Java, como minha representante, com um carregamento de mastros; procure vendê-los com lucro.

Ela então partiu. Mas quando o barco estava na altura da costa chinesa um tufão o fez naufragar. Mais uma vez Fátima se viu jogada como náufraga em uma praia de um pais desconhecido. De novo chorou amargamente, porque sentia que nada em sua vida acontecia como esperava. Sempre que tudo parecia andar bem alguma coisa acontecia e destruia suas esperanças.

— Por que será — perguntou pela terceira vez — que sempre que tento fazer alguma coisa não da certo? Por que devo passar por tantas desgraças?
Como não obteve respostas, levantou-se da areia e afastou-se da praia.

Acontece que na China ninguém tinha ouvido falar de Fátima ou de seus problemas. Mas existia a lenda de que um dia chegaria certa mulher estrangeira capaz de fazer uma tenda para o imperador. Como naquela época não existia ninguém na China que soubesse fazer tendas, todo mundo aguardava com ansiedade o cumprimento da profecia.

Para ter certeza de que a estrangeira ao chegar não passaria despercebida, uma vez por ano os sucessivos imperadores da China costumavam mandar seus mensageiros a todas as cidades e aldeias do país pedindo que toda mulher estrangeira fosse levada à corte. Exatamente numa dessas ocasiões, esgotada, Fátima chegou a uma cidade costeira da China. Os habitantes do lugar falaram com ela através de um intérprete e explicaram-lhe que devia ir à presença do imperador.

— Senhora — disse o imperador quando Fátima foi levada até ele — sabe fabricar uma tenda?
— Acho que sim, Majestade — respondeu a jovem.

Pediu cordas, mas não tinham. Lembrando-se dos seus tempos de fiandeira, Fátima colheu linho e fez as cordas. Depois pediu um tecido resistente, mas os chineses não o tinham do tipo que ela precisava. Então, utilizando sua experiência com os tecelões de Alexandria, fabricou um tecido forte, próprio para tendas. Percebeu que precisava de estacas para a tenda, mas não existiam no país. Lembrando-se do que lhe ensinara o fabricante de mastros em Istambul, Fátima fabricou umas estacas firmes. Quando estas estavam prontas ela puxou de novo pela memória, procurando lembrar-se de todas as tendas que tinha visto em suas viagens. E uma tenda foi construída.

Quando a maravilha foi mostrada ao imperador da China ele se prontificou a satisfazer qualquer desejo que Fátima expressasse. Ela escolheu morar na China, onde se casou com um belo príncipe e, rodeada por seus filhos, viveu muito feliz até o fim de seus dias.

Através dessas aventuras Fátima compreendeu que, o que em cada ocasião lhe tinha parecido ser uma experiência desagradável, acabou sendo parte essencial de sua felicidade.

A Fiandeira Fátima e a Tenda

Esta história é muito conhecida no folclore grego, onde em muitos de seus temas contemporâneos figuram dervixes e suas lendas. A versão aqui apresentada é atribuída ao Xeque Mohamed Jamaludin de Adrianópolis. Fundou a Ordem Jamalia ("A Formosa"), e faleceu em 1750.





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