O Shamã
Esse é um relato de uma aventura e de um encontro com um xamã que aconteceu a muitos anos atrás. Eu era ainda muito jovem e não tinha maturidade suficiente para lidar com a grandiosidade da situação, mas sem dúvida, essa foi uma experiência que marcou a minha vida para sempre.
O tema xamanismo não era tão popular quanto é hoje. E, eu, me interessava muito pouco. Já havia lido, por indicação do professor - que nesse momento da vida vida foi uma espécie de guia espiritual - o livro "A Erva do Diabo" de Carlos Castañeda. Este livro, foi muito importante para mim. Não apenas por introduzir o tema em questão em minha vida, mas porque criou, em mim, a certeza de que o uso de substâncias alucinógenas deve ser feita com muito cautela e aos cuidados de um orientador experiente e capaz de fazê-lo. Experiências feitas ao acaso ou por curiosidade são em geral, mais perigosas e prejudicam muito mais do que ajudam.
No contexto, de um mundo contemporâneo, onde o uso de drogas, praticamente, faz parte da vida, tornando-se uma coiso corriqueira, obviamente que, esta visão, me ajudou, muito, a entender e a evitar o uso convencional de drogas, tal como as pessoas as utilizam normalmente.
A complexidade dos livros de Carlos Castañeda e falta de uma orientação mais especializada sobre o assunto, logo, me levaram a abandonar o estudo e o interesse sobre o xamanismo.
Junto com meu professor, fomos de carro até o local, onde acontecia os encontros xamânicos. Chegamos lá em uma quarta feira. Fomos recebidos pelo dono do hotel que havia sido, também, aluno do meu professor. Ele nos explicou que o ritual só acontecia aos finais de semana, mas que podíamos ver o local. Nos levou, então, para uma área situada atrás do hotel.
Foi quando vi uma das coisas mais interessantes e bonitas que jamais havia visto até então em minha vida: uma autêntica tenda de índio norte americano. Parecia cena de filme. O proprietário do hotel nos disse que a tenda chamava-se tipi e também nos mostrou um outra, bem menor e mais arredondada montada próxima ela, e que chamava-se sweat lodge ou tenda do suor.
A tenda do suor era uma cabana baixa em fórmula de cúpula, onde se realiza um ritual de purificação. A cerimônia consiste em colocar umas pedras incandescentes dentro desta pequena construção. As pessoas entram e ficam ao redor das pedras e ficam ali suando, enquanto, o xamã asperge água e ervas purificantes sobre as pedras. É uma espécie de sauna.
Na época, não havia celular com câmera e eu não tinha uma máquina fotográfica para levar comigo. Na verdade, nem me preocupava com isso. O registro que tenho está em minha memória.
Saímos de lá extasiados com a experiência, de alguma maneira. Só o fato de estar lá e ver as tendas foi muito bom. Pensamos de alguma maneira em voltar no fim de semana, mas a cerimônia era particular, ou seja, para participar tinha que pagar e, não era barato.
Nesta noite eu tive um sonho. Mas, não foi um sonho qualquer. Foi o sonho mais forte, mais impressionante, mais vivo, mais real e apavorante que eu tive em toda a minha vida. Este sonho me fez acordar no meio da noite bruscamente. Eu suava frio.
Sonhei, que caminhava por um campo de batalha, onde haviam centenas de cavalos mortos. havia muito sangue e eu estava com muito medo. O céu era negro. Caminhava em direção a uma grande pedra, que parecia um granito, onde estava montada um tipi, semelhante a que eu havia visto na minha visita ao hotel.
A pedra com a tipi, eram as únicas coisas que se destacavam naquele cenário aterrorizante. Eu me sentia atraído por ela. Fui, então, me aproximando e quando cheguei relativamente perto, vi sair pela porta um índio que portava um escudo em uma mão e uma lança na outra. Era um guerreiro preparado para a batalha. Aquele índio saiu da tenda e ficou em frente a ela, parado e me encarando, mas não disse nada. Pude sentir a sua presença que era muito, muito forte. E, em seguida, eu despertei.
Estava em choque e ofegante. Comecei a me recobrar e a me perguntar "o que foi isso" e "o que isso significava". Como foi uma experiência muito forte e impactante eu sabia que tinha que ir atrás das respostas.
Levantei muito cedo. Morava em um área rural do lado oposto da cidade, onde ficava o hotel em que estava acontecendo o ritual. Tinha que pegar dois ônibus para cruzar a cidade.
Lembro muito bem desse momento... eu queria uma explicação para o sonho e saber se era uma mensagem para mim ou para aquele grupo que estava lá com ele. Eu queria uma explicação de algo como, "o cavalo significa isso", " o índio aquilo" e depois o desfecho, tipo, "vai e faça isso" ou "esse sonho quer dizer isso".
Mas, o que ele me disse foi : " Você foi visitado durante a noite por um espírito de um xamã. O sonho foi para você. O xamanismo pode ser um caminho para você. Mais importante do que o sonho é : o que você vai fazer com isso? "
Também disse eu deveria voltar lá, se quisesse. Expliquei que não tinha dinheiro para pagar. Lembro que ele disse alguma coisa sobre valor, mas não recordo como foi. Mas que me passou uma sensação do tipo "dá-se um jeito".
Mas, como, eu era um moleque inexperiente, nessa época, eu não havia entendido absolutamente nada e pior, não tinha ouvido o que eu queria ouvir, que era o significado do sonho, como a gente encontra nesses sites por ai. "Você sonhou com cavalo, cavalo significa isso, isso e isso". Esse tipo de interpretação de sonho barata.
Saí de lá puto de vida, por não obter o que eu queria da maneira como eu imaginava. Achei que ele era um grande charlatão e, é claro, não voltei mais, até porque eu não podia pagar.
Voltei a sonhar com cavalos e índios outras vezes. Sempre, índios norte americanos. Nunca mais foi um sonho tão forte como aquele, mas eram sempre bem vívidos e coloridos.
Até, que um dia, meu professor, me liga e diz: "vem aqui em casa essa noite, minha esposa vai fazer umas pizzas. Vamos receber um xamã aqui em casa". Eu disse comigo mesmo, esta história de novo... mas pelas pizzas, vale a pena. E lá fui eu.
Pizza vai e pizza vem, o cara, que era brasileiro e legal conversava sobre muitas coisas. Nessa época eu não estava muito legal e passava por uma depressão com crise de pânico.
O xamã atiçava a minha curiosidade com uma latinha de um pó preto que ele de vez em quando puxava do bolso e a abria cuidadosamente. Cheirava uma pitada daquele pó e depois guardava a latinha. Isso se repetiu algumas vezes.
Resolvi, então contar a história do sonho para ele. Para o meu espanto, ele, me disse, que estava lá no dia e que lembrava de tudo. Então, eu perguntei para ele, novamente, sobre o significado do sonho e, para o meu espanto maior, ele lembrava das palavras do Nelson, e as repetiu para mim.
Quando ele terminou de repetir as mesmas palavras, depois de dois anos, "a ficha caiu" pela primeira vez. "O mais importante é o que você vai fazer com isso". Essa ficha voltaria a cair ainda diversas vezes na minha vida e acho que ainda continua caindo.
E, ainda me disse, que para ele o mais impactante foi a maneira carinhosa como Nelson havia me tratado naquele dia e que ele não costumava ser assim com ninguém, nem mesmo com eles, que eram discípulos direto dele.
Além disso, eu resolvi perguntar pelo pó preto que ele cheirava, porque eu não aguentava mais de curiosidade. Ele explicou que estava usando para tratar uma sinusite e que era um rapé composto por sete ervas que ele mesmo havia preparado. Me ofereceu para cheirar e eu aceitei.
O efeito do rapé foi como uma bomba em mim e em todos que resolveram experimentar aquela noite. Cada um teve uma reação diferente.
No dia seguinte, eu praticamente, não tinha mais depressão e meu pânico começou a se atenuar. Mas esta é uma outra história.
Xamanismo
Tudo começou, uns dias antes, quando um professor do colégio, em que eu havia estudado, me disse que em um hotel da cidade estava acontecendo um ritual xamânico. Nessa época, eu já estava experimentando um busca espiritual intensa e, também, uma abertura maior para outros assuntos que fossem além das fronteiras da minha religião.O tema xamanismo não era tão popular quanto é hoje. E, eu, me interessava muito pouco. Já havia lido, por indicação do professor - que nesse momento da vida vida foi uma espécie de guia espiritual - o livro "A Erva do Diabo" de Carlos Castañeda. Este livro, foi muito importante para mim. Não apenas por introduzir o tema em questão em minha vida, mas porque criou, em mim, a certeza de que o uso de substâncias alucinógenas deve ser feita com muito cautela e aos cuidados de um orientador experiente e capaz de fazê-lo. Experiências feitas ao acaso ou por curiosidade são em geral, mais perigosas e prejudicam muito mais do que ajudam.
No contexto, de um mundo contemporâneo, onde o uso de drogas, praticamente, faz parte da vida, tornando-se uma coiso corriqueira, obviamente que, esta visão, me ajudou, muito, a entender e a evitar o uso convencional de drogas, tal como as pessoas as utilizam normalmente.
A complexidade dos livros de Carlos Castañeda e falta de uma orientação mais especializada sobre o assunto, logo, me levaram a abandonar o estudo e o interesse sobre o xamanismo.
A oportunidade
No entanto, naquele momento, saber que, ali perto de mim, estava acontecendo um ritual xamânico e ainda por cima, com um xamã norte americano, fez despertar o meu interesse imediatamente. Combinamos então de ir até o local.Junto com meu professor, fomos de carro até o local, onde acontecia os encontros xamânicos. Chegamos lá em uma quarta feira. Fomos recebidos pelo dono do hotel que havia sido, também, aluno do meu professor. Ele nos explicou que o ritual só acontecia aos finais de semana, mas que podíamos ver o local. Nos levou, então, para uma área situada atrás do hotel.
Foi quando vi uma das coisas mais interessantes e bonitas que jamais havia visto até então em minha vida: uma autêntica tenda de índio norte americano. Parecia cena de filme. O proprietário do hotel nos disse que a tenda chamava-se tipi e também nos mostrou um outra, bem menor e mais arredondada montada próxima ela, e que chamava-se sweat lodge ou tenda do suor.
As tendas
A tipi era bela e enorme. Nunca pensei que poderia ser tão grande. Sem dúvida ela exerceu um certo fascínio sobre mim. Ele, abriu a porta da tenda e nos mostrou seu interior, onde havia no centro as cinzas de uma fogueira, mas não nos deixou entrar, seguindo as orientações do xamã. Os rituais aconteciam dentro dessa tipi.A tenda do suor era uma cabana baixa em fórmula de cúpula, onde se realiza um ritual de purificação. A cerimônia consiste em colocar umas pedras incandescentes dentro desta pequena construção. As pessoas entram e ficam ao redor das pedras e ficam ali suando, enquanto, o xamã asperge água e ervas purificantes sobre as pedras. É uma espécie de sauna.
Na época, não havia celular com câmera e eu não tinha uma máquina fotográfica para levar comigo. Na verdade, nem me preocupava com isso. O registro que tenho está em minha memória.
Saímos de lá extasiados com a experiência, de alguma maneira. Só o fato de estar lá e ver as tendas foi muito bom. Pensamos de alguma maneira em voltar no fim de semana, mas a cerimônia era particular, ou seja, para participar tinha que pagar e, não era barato.
O sonho
Os dias que seguiram foram normais para mim, até chegar a noite de sábado, justamente, a noite em que o ritual acontecia.Nesta noite eu tive um sonho. Mas, não foi um sonho qualquer. Foi o sonho mais forte, mais impressionante, mais vivo, mais real e apavorante que eu tive em toda a minha vida. Este sonho me fez acordar no meio da noite bruscamente. Eu suava frio.
Sonhei, que caminhava por um campo de batalha, onde haviam centenas de cavalos mortos. havia muito sangue e eu estava com muito medo. O céu era negro. Caminhava em direção a uma grande pedra, que parecia um granito, onde estava montada um tipi, semelhante a que eu havia visto na minha visita ao hotel.
A pedra com a tipi, eram as únicas coisas que se destacavam naquele cenário aterrorizante. Eu me sentia atraído por ela. Fui, então, me aproximando e quando cheguei relativamente perto, vi sair pela porta um índio que portava um escudo em uma mão e uma lança na outra. Era um guerreiro preparado para a batalha. Aquele índio saiu da tenda e ficou em frente a ela, parado e me encarando, mas não disse nada. Pude sentir a sua presença que era muito, muito forte. E, em seguida, eu despertei.
Estava em choque e ofegante. Comecei a me recobrar e a me perguntar "o que foi isso" e "o que isso significava". Como foi uma experiência muito forte e impactante eu sabia que tinha que ir atrás das respostas.
Levantei muito cedo. Morava em um área rural do lado oposto da cidade, onde ficava o hotel em que estava acontecendo o ritual. Tinha que pegar dois ônibus para cruzar a cidade.
O xamã
Cheguei no hotel e me apresentei e disse o que havia ocorrido e que gostaria de conversar com o xamã. O ritual ainda não havia acabado e me fizeram esperar por cerca de uma hora. Me disseram que logo ele viria tomar o café da manhã.Nelson Turtle
Não demorou muito e vi um homem alto, de pele morena, já idoso, vestido de camisa e calça jeans. Usava óculos e um boné. Me colocaram na mesa de café junto com ele e com a ajuda de uma senhora que se voluntariou para traduzir nossa conversa me apresentaram a Nelson Turtle. Contei então o sonho a ele, enquanto, tomava o seu típico café da manhã: ovos com bacon.Lembro muito bem desse momento... eu queria uma explicação para o sonho e saber se era uma mensagem para mim ou para aquele grupo que estava lá com ele. Eu queria uma explicação de algo como, "o cavalo significa isso", " o índio aquilo" e depois o desfecho, tipo, "vai e faça isso" ou "esse sonho quer dizer isso".
Mas, o que ele me disse foi : " Você foi visitado durante a noite por um espírito de um xamã. O sonho foi para você. O xamanismo pode ser um caminho para você. Mais importante do que o sonho é : o que você vai fazer com isso? "
Também disse eu deveria voltar lá, se quisesse. Expliquei que não tinha dinheiro para pagar. Lembro que ele disse alguma coisa sobre valor, mas não recordo como foi. Mas que me passou uma sensação do tipo "dá-se um jeito".
Mas, como, eu era um moleque inexperiente, nessa época, eu não havia entendido absolutamente nada e pior, não tinha ouvido o que eu queria ouvir, que era o significado do sonho, como a gente encontra nesses sites por ai. "Você sonhou com cavalo, cavalo significa isso, isso e isso". Esse tipo de interpretação de sonho barata.
Saí de lá puto de vida, por não obter o que eu queria da maneira como eu imaginava. Achei que ele era um grande charlatão e, é claro, não voltei mais, até porque eu não podia pagar.
As fichas
No, entanto, esta história teve desdobramentos e continua a ter até hoje em minha vida.Voltei a sonhar com cavalos e índios outras vezes. Sempre, índios norte americanos. Nunca mais foi um sonho tão forte como aquele, mas eram sempre bem vívidos e coloridos.
Até, que um dia, meu professor, me liga e diz: "vem aqui em casa essa noite, minha esposa vai fazer umas pizzas. Vamos receber um xamã aqui em casa". Eu disse comigo mesmo, esta história de novo... mas pelas pizzas, vale a pena. E lá fui eu.
Pizza vai e pizza vem, o cara, que era brasileiro e legal conversava sobre muitas coisas. Nessa época eu não estava muito legal e passava por uma depressão com crise de pânico.
O xamã atiçava a minha curiosidade com uma latinha de um pó preto que ele de vez em quando puxava do bolso e a abria cuidadosamente. Cheirava uma pitada daquele pó e depois guardava a latinha. Isso se repetiu algumas vezes.
Resolvi, então contar a história do sonho para ele. Para o meu espanto, ele, me disse, que estava lá no dia e que lembrava de tudo. Então, eu perguntei para ele, novamente, sobre o significado do sonho e, para o meu espanto maior, ele lembrava das palavras do Nelson, e as repetiu para mim.
Quando ele terminou de repetir as mesmas palavras, depois de dois anos, "a ficha caiu" pela primeira vez. "O mais importante é o que você vai fazer com isso". Essa ficha voltaria a cair ainda diversas vezes na minha vida e acho que ainda continua caindo.
E, ainda me disse, que para ele o mais impactante foi a maneira carinhosa como Nelson havia me tratado naquele dia e que ele não costumava ser assim com ninguém, nem mesmo com eles, que eram discípulos direto dele.
Além disso, eu resolvi perguntar pelo pó preto que ele cheirava, porque eu não aguentava mais de curiosidade. Ele explicou que estava usando para tratar uma sinusite e que era um rapé composto por sete ervas que ele mesmo havia preparado. Me ofereceu para cheirar e eu aceitei.
O efeito do rapé foi como uma bomba em mim e em todos que resolveram experimentar aquela noite. Cada um teve uma reação diferente.
No dia seguinte, eu praticamente, não tinha mais depressão e meu pânico começou a se atenuar. Mas esta é uma outra história.
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