Aprender primeiro e desaprender depois.
"A dificuldade do caminho espiritual é sempre resultado daquilo que emana de nós. O homem não gosta de ser aluno e prefere ser mestre. Se o homem ao menos soubesse que a grandeza e a perfeição dos grandes seres, que de tempos em tempos, vieram a este mundo repousou no fato de serem bons alunos, ao invés de mestres...! Quanto maior o mestre, melhor aluno ele foi. Ele aprendeu de todos, dos grandes e dos pequenos, dos sábios e dos tolos, dos jovens e dos velhos, estudando a natureza humana em todos os seus aspectos.
Alguém que esteja aprendendo a trilhar a senda espiritual deve tornar-se como uma taça vazia, a fim de que o vinho da música e da harmonia possa ser despejado em seu coração. Quando uma pessoa vem a mim e diz: "Aqui estou. Pode ajudar-me espiritualmente? Digo "Sim". Com freqüência essa pessoas diz: " Quero saber, primeiro que tudo, o que o senhor pensa a respeito da vida e da morte ou a respeito do princípio e do fim". E eu, então, fico imaginando qual será sua atitude, se, suas idéias preconcebidas não coincidirem com as minhas. Essa pessoa quer aprender e, no entanto, não quer se esvaziar. Seria o mesmo se alguém fosse a uma fonte para apanhar água com uma taça coberta. Quer a água, mas a taça está tapada, coberta com idéias preconcebidas".
De onde vieram, porém, as idéias preconcebidas? Nenhuma ideia pode ser chamada de só nossa. Mas por causa de tal ideia as pessoas brigam e discutem, ainda que ela não as satisfaçam inteiramente. Mesmo assim, elas se sentem num campo de batalha e continuam a manter suas taças cobertas. Assim, os místicos conceberam um método diferente. Eles aprenderam num curso diferente e esse curso consiste no auto-apagamento ou, em outras palavras, desaprender o que se aprendeu, tornando-se por esse método uma taça vazia.
Afirma-se no Oriente que a primeira coisa a ser aprendida é como tornar-se um aluno. Pode-se presumir que, com tal atitude, a pessoa perde a própria individualidade. No entanto, o que é a individualidade? Não é aquilo que colheu? O que são as idéias e as opiniões de uma pessoa? São conhecimentos colhidos e esse conhecimento deve ser desaprendido.
Pode-se pensar que o caráter da mente é de tal sorte que aquilo que se aprende fica gravado nela. Se assim for, como uma pessoa pode desaprender? Desaprender é completar esse conhecimento. Ver uma pessoa e dizer: "Aquela pessoa é pervertida e eu não gosto dela" é aprender. Ver mais longe e reconhecer algo bom nessa mesma pessoa, começar a gostar dela ou ter pena dela é começar a desaprender. Foi desfeito o nó. Primeiro aprende-se a enxergar com apenas um olho e, depois, com os dois, tornando a visão completa.
Tudo que aprendemos a respeito do mundo é parcial, porém quando isto é ligado a outro ponto de vista, obtemos o conhecimento em sua forma completa. É a isto que damos o nome de misticismo. Por que misticismo? Porque tal atitude não pode ser vertida em palavras. As palavras só mostrarão um lado da questão, ficando o outro lado além delas.
A manifestação inteira é dual e a dualidade nos faz inteligentes. Por trás da dualidade repousa a unidade. Se não nos opusermos à dualidade, movendo-nos em direção à unidade, jamais atingiremos a perfeição, nem tampouco chegaremos à espiritualidade.
Isto não significa que nosso aprendizado seja inútil. Ele é de grande valia. Dá-nos o poder de discriminação e discernimento das diferenças. Faz agudas as nossas inteligências e arguto o nosso olhar, de modo a podermos avaliar as coisas e utilizá-las adequadamente. Portanto, devemos aprender primeiro e desaprender depois. Não se olha para o céu em primeiro lugar quando se está na terra. Olha-se para a terra para observar e ver o que ela oferece, porém, ao mesmo tempo, não se deve pensar que o propósito da vida pode ser entendido olhando apenas para a terra. A realização do propósito da vida consiste em olhar para o céu".
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