Alquimia e o Despertar das Sutilezas



Despertando sutilezas

Dentro das ordens sufis, quando um mestre aceita adestrar um discípulo, o discípulo tem que se preparar para ter experiências que sua mente normal é incapaz de perceber. Este processo, que segue com a eliminação do condicionamento, ou pensamento automático, se chama “ativação das sutilezas”.

A palavra “sutileza” é utilizada como equivalente de um termo técnico sufi, cuja a palavra original é Latifa e o plural Lataif. A raiz árabe procede do grupo trilítero LTF. Deste grupo, se derivam os vocábulos para sutileza, suavidade, bondade, favor, delicadeza. O termo também tem sido traduzido como “lugar de pureza”, “lugar de iluminação” ou “centro de realidade”.

As “sutilezas” são despertadas através de exercícios específicos, que tem por objetivo ativar esses elementos ou centros de força ou baraka. Esse centros são assinalados como uma representação física teórica no corpo. A nível teórico a Latifa é considerada um “órgão incipiente de percepção espiritual”.

O discípulo tem que despertar cinco lataif, ou seja, receber a iluminação através de cinco dos sente centros sutis de comunicação.  O método, que se procede sob os cuidados de um instrutor (mestre), consiste em concentrar a consciência em certas áreas do corpo e da cabeça, que estão vinculadas com as faculdades dos latif.

Os cinco centros se denominam: o Coração, o Espírito, o Secreto (Consciência), O Misterioso (Intuição) e O Profundamente Oculto, (Percepção Profunda da Consciência). Outro que não é um Latifa em sentido estrito, é o Eu dominante, composto de um complexo de “Eus”, ou seja, a totalidade de que um homem ou uma mulher ordinários consideram sua personalidade e se caracterizam por uma série de variáveis estados de ânimo e personalidades cujos os trânsitos rápidos dão ao indivíduo uma impressão que sua consciência é uma constante ou uma unidade. A sétima sutileza só é acessível para aqueles que desenvolveram as anteriores e pertence ao sábio verdadeiro e transmissor do ensinamento.

As áreas envolvidas com a ativação dos Lataif são: Coração (Qualb), no lado esquerdo do corpo. Espírito (Ruh), no lado direito. Consciência (sirr), no plexo solar. Intuição (Khafi), localizado na testa. Percepção Profunda da Consciência, localizada no centro do peito. Eu, localizado abaixo do umbigo.

A correspondência de cores é a seguinte: Coração-amarelo; Espírito-vermelho; Cosnciência-branco; Intuição-preto; Percepção Profunda da Consciência-verde.

Latifa, Localização e Cor

Coração (qualb) Lado esquerdo do corpo = Amarelo

Espírito (Ruh) Lado direito do corpo = Vermelho

Consciência (sirr) Plexo Solar = Branco

Intuição (khafi) Testa = Preto

Percepção Profunda da Consciência (ikhfa) Centro do Peito = Verde


A medida que os exercícios ativam os Latif, o discípulo vai tomando consciência dos diversos potenciais de sua mente. Pouco a pouco, esta consciência se abre e passa através da cegueira que faz do homem ordinário um prisioneiro da vida e da existência, tal como ele mesmo a concebe.

A iluminação ou ativação de um centro ou mais, pode ocorrer parcialmente ou acidentalmente. Quando isto ocorre, o indivíduo pode se aprofundar durante um tempo e intuitivamente, no conhecimento do Latifa correspondente. No entanto, este aprofundamento não é de forma alguma um desenvolvimento integral e a mente não poderá se equilibrar em torno desta hipertrofia, pois é uma tarefa impossível. Como em todos os fenômenos unilaterais, este pode ter consequências perigosas, que incluem uma idéia exagerada da própria importância, a aparição de qualidades indesejadas ou uma deterioração posterior da consciência.

O desenvolvimento não equilibrado é a causa de que as pessoas tenham a ilusão de serem videntes ou sábios. Devido ao poder inerente a Latifa, o público em geral pode chegar a crer que tais indivíduos merecem ser escutados. Segundo o diagnóstico Sufi, este tipo de personalidade é a de muitos falsos mestres metafísicos. Naturalmente, eles podem estar convencidos de que são genuínos, pois não transmutaram o hábito de enganar a si mesmos e de enganar aos demais. Pelo contrário, o despertar de um Latifa como um novo órgão de carente de direção alimenta este hábito.

O mesmo ocorre com os exercícios respiratórios ou movimentos de danças realizadas de forma e na ordem incorretos.

A ativação dos centros, por tanto, produz um homem novo, em mais de um sentido. Para o leitor, ou os buscadores individuais não associem inconscientemente este sistema nem o compare com outros similares, vale assinalar que a ativação dos latif é apenas parte de um desenvolvimento muito mais amplo, que não pode ser alcançado mediante estudos individuais.

Analogias com outros sistemas:

Os Iogues, os Cristãos esotéricos e os Alquimistas utilizavam uma metodologia similar. O símbolo da cruz, gesto simbólico fundamental do cristianismo, não é nada mais que a recordação física dos quatro lataif. Estes órgãos de percepção espiritual figuram nos ícones e em outras obras de arte da comunidade monástica cristã. Assim, a correlação entre os latif aparece refletida ou simulada em imagens, como a distribuição de cores predominantes nos ícones, da mesma forma que a composição formal, por exemplo, da cabeça do menino Jesus, apoiada sobre o coração da Virgem Maria, indicam a importância desta técnica espiritual no Cristianismo Ocidental.

Podemos considerar a sucessão de cores vistas pelo alquimista na literatura ocidental como referência à concentração sobre determinadas localizações físicas, se a compararmos com a literatura sufista sobre exercícios.

Entre os alquimistas cristãos, a sucessão de cores preto- branco-amarelo e vermelho, é muito comum. Transportando essa sequencia de cores para o equivalente físico, teremos o sinal da cruz, traçado sobre o corpo.

Trata-se de uma adaptação ao método sufi de ativação dos Latif, cuja a sequencia é amarelo- vermelho- branco e preto.

O método alquímico também utilizava os padrões: preto – desenvolvimento parcial da faculdade negra, a testa. Branco – plexo solar, o segundo ponto do sinal da cruz. Verde – alternativa sufista para o lado direito do peito. Amarelo-limão – lado esquerdo do peito “coração”.  Vermelho, lado direito do peito.

As vezes muitas cores aparecem na consciência. Tal fenômeno chamado de “pavão real” (cores variadas), era considerado um sinal importante para os alquimistas. Ocorre como condição especial, não invariável, que ocorre na mente quando cores mutáveis, ou fotismos, inundam a consciência. É uma fase anterior a estabilização da consciência e pode, em alguns casos, serem comparadas às ilusões de uma “viagem” produzida por alucinógenos.

Lataif x Chackras

Como visto anteriormente a ativação dos Lataif é parte do método sufi de desenvolvimento. Os pontos ou centros físicos são uma referência e não estão de fato correlacionados ao corpo humano.

Apesar, de análoga ao sistema Iogue dos chackras e muitas vezes confundida com eles, existem diferenças importantes. Os chackras ou padmas são entendidos como centros fisicamente localizados no corpo, tendo como referência, por exemplo, órgãos ou glândulas, aos quais estariam ligados por nervos invisíveis ou canais.

A ligação, entretanto, não existe, de acordo com a prática sufi, que esclarece que tais centros não passam de pontos de concentração. Essa informação geralmente é ignorada ou passa despercebida pelos iogues.

A concentração nos centros são formulações convenientes cuja ativação faz parte de uma hipótese teórica de trabalho.

Tanto o sufismo como o cristianismo de uma espécie esotérica preservam teoria semelhante, combinando-a com certos exercícios.



Fonte: Os Sufis, Idreis Shah.



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