A Percepção Nascida da Necessidade
Certa noite, o despótico governante do
Turquestão estava ouvindo os contos de um dervixe, quando lhe ocorreu indagar
sobre Khidr.
- Khidr aparece em resposta à necessidade –
disse o dervixe. – Toque em sua túnica quando ele aparecer e o conhecimento em
seu todo será seu.
- E isso pode acontecer a qualquer um? –
perguntou o rei.
- A todo aquele que seja apto – respondeu o
dervixe.
‘E quem mais ‘apto’ que eu?’, pensou o rei. E
resolveu divulgar um edital:
‘Tornarei rico a quem me apresentar ao Invisível
Khidr, o Grande Protetor dos Homens.’
Um pobre velho chamado Bakthiar Baba, ouvindo a
proclamação feita pelos arautos, teve uma idéia. E disse à sua mulher:
- Tenho um plano. Logo ficaremos ricos, mas
pouco tempo antes terei que morrer. Mas isso não importa, pois com as riquezas
que obteremos você ficará bem amparada.
Então Bakthiar se apresentou ante o rei e lhe
disse que encontraria Khidr dentro de quarenta dias se lhe fossem entregues mil
moedas de ouro.
- Se você encontrar realmente Khidr, receberá
mais nove mil moedas de ouro. Mas se falhar, morrerá, executado neste mesmo
lugar, como advertência aos que ousam brincar com os reis- disse o monarca.
Bakthiar aceitou as condições impostas. Voltou
para casa e deu as mil moedas à sua esposa como um pecúlio para o resto da
vida. Passou então os quarenta dias em meditação, preparando-se para ingressar
na outra vida.
No quadragésimo dia foi ao encontro do rei, no
palácio. E aí disse:
- Sua Majestade, sua cobiça o fez supor que o
dinheiro traria o Khidr. Mas Khidr, segundo se diz, não responde ao chamado
quando este é feito inspirado pela cobiça.
O rei ficou possesso e bradou:
- Miserável, você perdeu o direito de viver.
Quem é afinal para brincar com as aspirações de um rei?
- Reza a lenda que qualquer homem poderia
encontrar-se com Khidr, mas tal encontro só será produtivo na medida em que as
intenções do homem sejam boas. dizem que Khidr visitaria Sua Alteza
concedendo-lhe apenas aquilo de que seja merecedor pelo seu tempo de reinado.
Isto é algo sobre o que nem o senhor nem eu temos controle algum.
- Basta de conversa – disse o rei -, pois com
isso não prolongará seu tempo de vida. Só resta perguntar aos ministros aqui
reunidos sua opinião sobre qual a melhor forma de executá-lo.
Voltando-se para o primeiro-ministro, perguntou:
- Como deve morrer este homem?
- Que seja assado vivo, para que sirva de lição
– respondeu o vizir.
O segundo vizir, falando pela ordem, disse:
- Que seja esquartejado, membro por membro.
O terceiro vizir opinou:
- Dêem-lhe o que necessita para viver em vez de
obrigá-lo a enganar o próximo para poder sustentar sua família.
Enquanto ocorria essa discussão, um velho sábio
entrara na sala de reuniões. Mal o terceiro vizir acabou de falar, o sábio
disse:
- Cada homem opina de acordo com seus imutáveis
e ocultos preconceitos.
- Que está querendo dizer? – perguntou o rei.
- Simplesmente que o primeiro vizir já foi
padeiro, portanto opinou por assarem o acusado. O segundo vizir era açougueiro,
daí falar em esquartejamento. O terceiro vizir, tendo estudado a arte de
governar, percebe a origem da questão que estamos debatendo.
O ancião fez uma pausa antes de completar:
- Atentem para duas coisas. Primeiro, o Khidr
aparece e atende a cada homem de acordo com a capacidade que este tenha para
beneficiar-se com sua presença. Segundo, este homem, Bakthiar, a quem chamo
Baba, em louvor a seus sacrifícios, foi levado a fazer o que fez por desespero,
que intensificou suas necessidades e daí conseguiu que eu aparecesse diante de
vós.
Enquanto o observavam, o velho sábio
desapareceu.
Resolvendo seguir as diretivas de Khidr, o rei
concedeu a Bakthiar uma pensão vitalícia. O primeiro e o segundo vizir foram
demitidos e as mil moedas de ouro retornaram aos cofres do tesouro real por
iniciativa do agradecido Bakthiar Baba e sua mulher.
Como o rei pode ser capaz de ver Khidr
novamente, e o que ocorreu entre eles, isto figura na história da história da
história do Mundo Oculto.
A Percepção Nascida da Necessidade
Conta-se que Bakthiar Baba foi um sábio sufi que
levou uma vida humilde e comum em Khorasan até os fatos aqui descritos.
Este conto, atribuído também a muitos outros
xeques sufis, ilustra o conceito do entrelaçamento das aspirações humanas com
uma outra esfera do ser.
Khidr é o elo entre essas duas esferas.
O título desta história é sugerido pelo famoso
poema de Jalaludin Rumi:
‘Novos órgãos perceptivos nascem como resultado
da necessidade.
Assim, ó homem, incremente sua necessidade, para
que possa ampliar sua percepção.’
A presente versão foi recolhida dos lábios de um
mestre dervixe do Afeganistão.
Extraído de ‘Histórias dos Dervixes’ Idries Shah
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