A ação dos contos e lendas


A ação dos contos e lendas.

Não podemos estudar os contos de ensinamento apenas a partir de um ponto de vista. Se dissermos que determinada característica ou personagem de um conto significa isto ou aquilo, podemos estar caindo no erro da interpretação intelectual ou apenas usando a imaginação. Os contos de ensinamento atuam em um nível superior.

Assim, não estou querendo decodificar o significado do conto, nem tão pouco tentar explicá-lo. Apenas estou destacando algumas observações que fiz para uma maior compreensão e aprofundamento da nossa consciência global em relação aos contos de ensinamento.

De acordo com o texto “Histórias de Ensinamento”, Cap. II,  do livro Sufismo no Ocidente, precisamos antes de mais nada aceitar que as histórias realmente podem operar em um nível superior, como se fossem documentos de valor técnico.

Como em qualquer texto científico ou fórmula matemática, as histórias, no que diz respeito ao seu poder superior, dependem de : alguém que possa compreendê-las em um nível superior; alguém que possa estabelecer sua validade para um curso de estudos; pessoas que estejam preparadas para estudá-las e usá-las; e um contexto no qual utilizá-las”.

O perigo do automatismo e do intelectualismo é querer identificar e estabelecer apenas um significado para os vários níveis e elementos na qual uma história pode operar. Também pode estabelecer este significado sendo o único verdadeiro. “Isto, significa isto”. Ao fazer isso cristaliza e reduz a um nível inferior. Nosso condicionamento para ver as histórias apenas como um fator de entretenimento ou usá-la para outros propósitos impede que façamos um estudo sério e a tenhamos como um veículo de ensinamento superior.

Certos termos técnicos, também, podem estar inseridos nas histórias. Uma pessoa não preparada não pode compreender:

Ao contrário das fórmulas científicas, os contos produzem toda uma gama de efeitos evolutivos. Segundo o grau de preparação de um indivíduo ou de um grupo, as camadas sucessivas de uma história tornam-se aparentes. Fora de uma escola apropriada, que permita compreender o método e o conteúdo dos contos, não há por assim dizer, qualquer possibilidade de que um estudo arbitrário desses contos produza algum resultado. É necessário, pois, voltarmos a uma etapa anterior, que nos possibilite preparar-nos solidamente para ver o valor do conto. É a etapa na qual podemos nos familiarizar com ele, considerando-o como um paralelo consciente e produtivo de certos estados da mente, ou como uma alegoria deles”. Sufismo no Ocidente, Cap II, pág 21.

Fica claro que o material e o significado das histórias de ensinamento são um veículo para preparar  o estudante para a observação dos vários estados da mente humana. O método para o estudo dessas histórias é a familiarização.

Familiarizar =  Tornar familiar.  Acostumar, habituar-se, aclimatar-se.

Os símbolos do conto são seus personagens.”

A conduta dos personagens sugere à mente a maneira como a consciência humana se comporta às vezes”.

Temos aqui duas indicações importantes para compreendermos melhor o funcionamento das histórias. Os personagens indicando símbolos e o comportamento como o processo que às vezes acontece na consciência humana.

Os símbolos podem ser homens, mulheres, animais, lugares. O comportamento são os movimentos manipulados em um conto. Isso nos pode por em contato com faculdades superiores da mente, apesar de trabalharmos em um nível mais baixo que é o nível da imaginação.

O próprio significado de símbolo transcende o significado. O símbolo pode ser algo tangível ou não, mas que normalmente transmite ideia, sentimentos, sensações e atingem a percepção em níveis muito mais sutis.

“Sua linguagem prenhe de sentido grita para nós que elas significam mais do que dizem. Podemos indicar o símbolo de imediato, muito embora não sejamos capazes de desvendar seu significado, para nossa plena satisfação. Um símbolo permanece um desafio perpétuo para nossos pensamentos e sentimentos. Isso provavelmente explica a razão por que um trabalho simbólico é tão estimulante, por que nos domina tão intensamente, mas também por que raramente nos propicia um prazer puramente estético.” Jung (CW 15, parág. 119).

Os símbolos são difíceis de verbalizar, de compreender. É exatamente nesse ponto que as histórias de ensinamento atuam. Comunicam-se com a mente consciente (concreta) e inconsciente (abstrata), através dos símbolos. A comunicação se dá de maneira completa e a mensagem pode atravessar os vários campos da mente, inclusive os condicionados e chegar em áreas superiores.

Também sobre os símbolos Jung constatou que os símbolos expressam-se por analogias. Os símbolos são contraditórios, opostos e complementares, em si mesmo. A mente racional busca uma explicação enquanto a mente abstrata procura aceitá-lo sem compreensão:

“Da atividade do inconsciente emerge agora um novo conteúdo, constelado por tese e antítese em igual medida e mantendo-se em relação compensatória com ambos. Portanto, forma o espaço intermédio em que os opostos podem ser unidos” Jung (CW 6, parág. 825).

Se defendermos uma ou outra posição, simplesmente encontramos e afirmamos a oposição.

 “O próprio símbolo aqui presta auxílio, pois, embora não seja lógico, contém a situação psicológica. Sua natureza é paradoxal e representa o terceiro fator ou posição que não existe na lógica, mas fornece uma perspectiva a partir da qual se pode fazer uma síntese dos elementos opostos. Quando confrontando com essa perspectiva, o EGO fica liberado para exercer uma REFLEXÃO e uma escolha. Portanto, o símbolo nem é um ponto de vista alternativo nem uma compensação per se. Ele atrai nossa atenção para uma outra posição que, se apropriadamente compreendida, amplia a personalidade existente, além de solucionar o conflito...” (Dicionário Crítico de Analise Junguiana).

Coisas opostas que operam em conjunto é outro tema abordado pelo sufismo. “Quando se conciliam opostos aparentes, a individualidade não só se completa, mas também transcende os limites da humanidade comum, tais como os compreendemos”. ( Idries Shah, Os Sufis).

O processo desencadeado na mente humana e a reação é a que se segue:

“O processo simbólico inicia-se com a pessoa sentindo-se paralisada, “suspensa”, poderosamente obstruída na busca de seus objetivos e termina por uma elucidação, “introvisão” e de capacidade de avançar em um curso modificado”. (D.Crítico de Análise Junguiana).

É interessante notar, a questão da “suspensão”. Pausa ou parada também são termos técnicos sufis. Seria durante estas pausa ou suspensão do pensamento condicionado que a Baraka,  poderia ser transmitida. Pausa ou parada também constituem um dos segredos da Tradição Sufi. Não seria de se estranhar que as histórias também pudessem atuar como veículo de transmissão da Baraka, dado as condições e circunstâncias ideais para que isso ocorra .

Na introdução à hisória dos Ilhéus, Idries Shah, comenta:

 “A maioria das fábulas contém pelo menos alguma verdade, e elas, não raro, facultam às pessoas a absorção de ideias que os modelos comuns do seu pensamento as impede de digerir. As fábulas, portanto, tem sido usadas pelos mestres sufistas a fim de apresentar uma imagem da vida mais em harmonia com os seus sentimentos do que seria possível por meio de exercícios intelectuais”. ( Os Sufis).

No final, da mesma história, Idries Shah, chama a atenção para outra característica das histórias de ensinamento, a linguagem cifrada, utilizada pelos sufis, para transmitirem o que querem dizer. Exemplifica:

 “Mude a posição das letras do nome da comunidade original - El Ar – e terá “Real”. Talvez já tenham notado que o nome adotado pelos revolucionários “please” (Agradar) – forma com as letras mudadas de lugar, a palavra “asleep” (Adormecido).”

Tudo isso, nos dá um sentido de porque precisamos nos familiarizar com as histórias e porque não podemos buscar apenas um sentido intelectual de compreensão. Podemos ver que somente os iniciados em uma escola e que tem suficiente preparo e familiarização com os termos técnicos adotados podem compreender e se beneficiarem do conteúdo dos contos.

Um mergulho profundo na natureza dos contos se faz necessário. Aprender a familiarizar-se com os contos e lendas é um passo para ir cada vez mais profundo no desenvolvimento de níveis superiores de consciência.

José Francisco Matulja

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